Depois de tantos dias... estou eu aqui de volta. Tanta coisa aconteceu essa semana. Essa exata uma semana que não apareço por aqui. Resumidamente:
-meu avô foi internado na CTI com enfizema pulmonar, cancer de pulmão e pneumonia. está em coma induzido, respirando com ajuda de aparelhos e diabético. literalmente, morrendo afogado.
-minha avó está aqui em casa, e também não está nada bem. a situação está realmente séria. algo dentro de mim (algo que não quero ouvir) me diz que não ve-lo mais. tento ignorar esse lado categoricamente.
-com tudo isso acontecendo, desisti de ir ao show do placebo, obviamente. minha cabeça está realmente confusa. não posso ve-lo, pois não tenho "afastamento" suficiente para entrar numa CTI e ver o meu avô entubado e tendo suas funções vitais feitas por aparelhos. Confesso que realmente não sei como reagiria a isso. Mas pensar que talvez a última imagem que terei dele é a de nós lá na casa da vovó, ele saindo com o mariano pra ir pro hospital, as mãos e lábios roxos e sem conseguir controlar as pernas... dói tanto. não tenho a menor dúvida de que isso de alguma forma me faz querer mais e mais ve-lo. o que também me faz toda noite sonhar com a época em que morávamos em maria da graça e iamos pra piscina antes do colégio e brincávamos juntos. e agora, não tenho mais afastamento para ve-lo. claro que não tenho! ele é meu avô, porra! como posso ter afastamento do meu próprio avô?!
-minha dinda está se mudando temporariamente para o Rio, para ficar mais perto de todos. estou ficando cansada de toda essa tempestade de gente entrando e saindo de casa, do telefone que não pára. sempre a mesma coisa:
-Oi, aqui é a tia tal, como está seu avõ.
-Oi, o quadro dele é estável.
-Poxa, vc tem que ser forte e dar muita força pra sua avó.
-Ok, obrigada por ligar.
Ligam de 7 a 10 vezes por dia. Acordo as 5 da manhã, e mal saio do banho eles já estão ligando. saio pro colégio as 6h. chego em casa às 14h. pilhas de trabalho. dever de casa, trabalho para nota, teste,... tenho ido dormir entre 00h e 1h da manhã. durmo umas 4h por noite pra no dia seguinte começar tudo de novo. no colégio ninguém parece perceber. mas já passou o tempo em que eu queria que perguntassem como eu estou. agora se não me ignorarem já é o suficiente. são burros demais para dizer "como vc está?" ainda mais para perceber que eu estou cansada, com sono e triste. Impossível.
Qual será o limite que uma pessoa consegue alcançar lutando por algo que ela deseja? Até que ponto uma pessoa pode lutar por um ideal? Qual será o limite humano?
Meu avô fuma a mais de 50 anos. Sempre soube o que o cigarro causava. Mas ele fez uma escolha. Escolheu continuar fumando e vivendo a vida dele. Da forma que ele escolheu. Até que um dia, ele não consegue respirar e é induzido a ficar em coma. ou como tenho dito/pensado ultimamente, dormindo em um sono controlado e sem sonhos. Não pode acordar. Não pode sonhar. Apenas dormir. Mas a vida fora daquele hospital continua. Ele fez a escolha, mas nós não. Minha avó não escolheu um marido em coma. meu dindo não escolheu um pai sem sonhos. minha mãe não escolheu cuidar de um pai, a vida inteira ausente. e eu, bem eu não escolhi a vida, nem a minha nem a do meu avÕ. mas escolhi me envolver emocionalmente. poderia simplesmente continuar a viver minha vida. ok, talvez não seja tão simples assim. mas de certa forma, escolhi me envolver com meu avô, como neta, como pessoa e como uma pequena criança que encontra conforto no colo do "pai". E chega um dia que esse "pai" não respira sozinho e de repente ele está dormindo um sono sem sonhos. É tão cruel. Cruel com ele, cruel com minha avó, com meu dindo, cruel com minha mãe, minha dinda e todos que ligam para cá. É a crueldade sem um iniciante. Não foi meu avô que começou isso. Nem mesmo a droga do cigarro. Muito menos o dono da industria de cigarros. Então quem foi? Eu? Vc? Talvez. Mas talvez não é o suficiente quando a pessoa que sempre se viu sorrindo e falando o quanto vc era pequenina está deitada numa cama, dormindo um sono sem sonhos.
[só pq ele ama demais essa musica]
Ainda é cedo amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
[by Cartola - O Mundo é um Moinho]






